Quarta-feira chuvosa e o grupo oito transporta-se à longínqua USP para podermos conhecer o Paço das Artes e posteriormente o MAC.
O Paço das Artes encontra-se em uma das ruas principais da Cidade Universitária, logo após o Portão 1, o que de certa forma é um facilitador já que a maioria dos ônibus entram por esse portão e já que uma vez lá dentro fica fácil localizá-lo. Isso não muda a dificuldade de chegar na Cidade Universitária em si, o local é afastado do centro da cidade, sem nenhum metrô nas proximidades, tornando-se um desafio alcançá-la em horários de trânsito intenso.
Como comentado em grupo, a fachada do Paço é escura e pouco convidativa, principalmente por encontrar-se ao lado de construções abandonadas. O local é um tanto morto, não só pela aparência, mas também por ser um local com pouca circulação de pedestres. A instituição não tem vínculos com a USP, e acredito que sua posição física na Cidade Universitária demonstra também essa segregação.
O educador que acompanhou nosso grupo chamava-se Tiago Santinho. Guardamos nossas bolsas em uma sala e ele nos chamou a sentar para que pudéssemos conversar. Primeiramente ele perguntou nossas áreas de estudo para que pudesse ter uma noção do grupo, depois perguntou quem já conhecia o Paço das Artes.
A instituição Paço das Artes encontrava-se inicialmente na Av. Paulista, depois foi para o MIS, onde passou 20 anos. Ambos possuem a mesma administração, apesar de terem propostas bem diferentes. De qualquer maneira, mesmo o Paço estando já há 15 anos na USP, ainda haveria uma confusão da parte do público, entre as duas instituições.
Tiago frisou a importância do acolhimento, no qual o educador deve situar o visitante, já que nem todo espaço cultural é um museu.
Ele afirmou haver semelhanças e até mesmo um diálogo, entre o trabalho realizado no Paço e a Bienal de Artes, e que tentaria abordar esses aspectos.
O educativo do Paço foi recentemente reformado. Uma das modificações é que agora os educadores são contratados, o que melhora a qualidade do trabalho. Os funcionários criam vínculos com a instituição e passam a ver os resultados do seu trabalho, que deixa de ser algo isolado e passageiro. Principalmente no Paço das Artes, dada a dificuldade de acesso e o caráter específico das exposições, que tratarei a seguir, o educativo tem papel fundamental, segundo Tiago, até mesmo de justificar a razão de ser do espaço. Visitamos dois espaços do educativo: o Cubo Branco, usado normalmente para o acolhimento, principalmente com crianças e adolescentes, o espaço tem paredes brancas, pufes e lousas, onde os visitantes teriam um momento só para eles, para relaxar, desenhar ou escrever na lousa; o outro espaço é uma sala com um telão e uma câmera de vídeo, onde os visitantes teriam um momento de interagir e de realizar ali suas próprias produções.
Tiago afirmou que busca em suas visitas uma mediação mais horizontal e menos burocrática. Ou seja, não só evita fazer uso de conceitos e categorias na mediação, como evita fazer uso da própria palavra ‘arte’, que segundo ele já traria uma carga muito grande consigo. O processo de formação deve ser metalingüístico, evocando também o repertório do próprio visitante. Suas visitas não têm roteiro, ele utiliza o primeiro contato com o grupo para senti-lo, e ver o que melhor se adequa a ele: a linguagem a ser usada, as salas a serem ocupadas, atividades a serem realizadas, entre outros. Nesse sentido haveria uma liberdade e até mesmo um incentivo da parte dos coordenadores do educativo que acreditam na idéia do educador também como um artista.
O Paço das Artes foi definido como um espaço para experimentação, uma plataforma para novos artistas. Além de um espaço expositivo, seria um espaço de discussão, já que não se volta a artistas já consagrados. A “coluna vertebral” da casa é a Temporada de Projetos, quando qualquer pessoa pode mandar seu projeto, que será submetido a uma banca avaliadora, podendo vir a ser exposto ou não. Os artistas selecionados, além de auxílio financeiro, recebem acompanhamento durante um ano, dão palestras, entrevistas e têm seus trabalhos divulgados através de publicações bilíngües. Além disso, o artista pode escolher um crítico para avaliar suas obras, o que consiste numa busca por sair de um circuito fechado e muitas vezes viciado. O espaço recebe também projetos de curadores, que quando aceitos realizam a curadoria de exposições no Paço.
No referente às obras, começamos pelo lado de fora vendo o jardim montado com zíperes por Zamproni, discutiu-se a questão da naturalização do espaço e como o educador deve proceder no sentido de evitar que as pessoas toquem ou danifiquem as obras visitadas. Já do lado de dentro, vimos uma instalação com vídeo de Rick Castro, onde as pessoas teriam a oportunidade de “abravanar”. Os outros artistas expostos eram Nino Cais, Bianca Tomazelli, Gisele Camargo, Ana Holk, e Maria Laet, pelos quais passamos mais rapidamente. Poucas explicações foram dadas e no final houve um espaço para questões gerais.
Já no Museu de Arte Contemporânea, também na Cidade Universitária, mas em região bem mais central, o que dificulta um pouco o acesso, mas mostra a ligação e envolvimento da instituição com a Universidade, fomos recebidos pela educadora Silvia, que logo nos levou a um auditório para assistirmos a uma apresentação em Power Point sobre o MAC.
A apresentação abordava sobretudo os programas educacionais oferecidos pelo MAC e organizados pela DTCEA (Divisão Técnico-Científica em Educação e Arte), por ter sido passada muito rapidamente, pouco foi apreendido sobre seu conteúdo. Colocarei somente o nome dos programas que consegui anotar: Encontros Contemporâneos, Inter-arte, Encontro com crianças, Encontro com terceira idade, MEL (Museu, Educação e Lúdico), Poéticas visuais em interação e Viva arte!.
Com o final da apresentação, Silvia falou da importância de nós, possíveis futuros educadores da Bienal, conhecermos a arte moderna. Sim, apesar de chamar-se Museu de Arte Contemporânea, o acervo do MAC constitui-se primordialmente de obras modernas, inclusive muitas obras de destaque internacional que chegaram até ali por meio da própria Bienal de Artes de São Paulo. Segundo Silvia, a arte moderna é essencial para que possamos compreender a arte contemporânea, já que a última teria se apropriado de certa forma do discurso da primeira. Os anos 60, momento da contra-cultura, seria também o momento do experimentalismo, não haveria mais suporte pré-determinado para as obras, um material específico.
Fomos levados então à exposição Entre Atos 1964/68, que nos mostraria justamente essa arte moderna produzida na época da ditadura e com forte conotação política. Antes de começar a visita, Silvia nos falou rapidamente sobre a necessidade do educativo possuir um discurso que se adeque e sensibilize o público. Este deveria ter no museu um momento de recolhimento e calmaria. O educador deve saber quando falar, de acordo com Silvia. Após esse momento, ela nos conduziu a algumas obras e as interpretou para nós, dando explicações que julgava pertinentes. Ao final da visita um debate foi levantado sobre a ligação da arte com o mercado econômico, e as possíveis conseqüências dessa ligação, como uma crescente elitização da arte.