Esse é um texto com impressões/reflexões/questões de um dos encontros do grupo oito. Início da manhã: depoimentos sobre o encontro anterior. Relatos sobre a gratificante experiência de ver e discutir aspectos da história de algo que comumente chamamos “arte”. Pensa-se, então, que nos aproximamos de uma compreensão maior sobre o que esse algo possa ser. Contudo, alguns se questionam: - Mas tudo o que um artista faz é arte? Nos seria interessante perguntar também por quem faz o artista? Não pode ser ele e seus trabalhos uma construção de um dado contexto histórico? Para pensar atualmente em arte não valeria pensar em mundo da arte? Uma recorrência que notamos: discutimos insistentemente trabalhos sob o signo da arte – muita vez vendo-a como algo autônomo. De um paralelo com a utilidade da ciência, uma aporia: - Para que serve a arte?
Tem início uma discussão sobre como fazer nosso percurso do dia seguinte, na Pinacoteca, pelo Andy Warhol. Improviso? Espontaneidade? Organicidade? Script? – Decidir na hora o que se deve abordar dá merda! Então seria necessário algo como um roteiro de segurança, esboçando nele propostas e temas a abordar com possíveis visitantes? Tocar então nos temas/motivos/assuntos/referentes de tal figuração; na reprodutibilidade do trabalho e da imagem, na divisão da feitura de um trabalho (na factory); na auto-referência da “arte”; - na necessidade de não descolar técnica e assunto/poética; em como fazer tal abordagem com crianças – do que falar com elas? Como falar? Adequando conteúdo e linguagem? Isso, simplesmente? E se a fruição/conversa partisse de uma descrição da imagem e das relações entre cores e formas, algo que nos aproximaria paulatinamente – iria dizer organicamente - de questões que nos tocam mais o interesse, mas que talvez não importe de nada aos pequenos visitantes? Começar a visita com as “Marilyns” não poderia ser um obstáculo para um visitante mais jovem, posto que teria que saber/imaginar/lembrar quem ela seja? Isso não o distanciaria da obra para buscar algo na história, na “cultura” – algo que possivelmente devesse ser dito por nós? Verticalidade? E se ao invés, antes de começar por essa espécie de paradigma da indústria cultural/cultura de massas, começássemos por algo, digamos, mais neutro, como pelas vaquinhas que forram toda uma sala? Enquanto postura – falar ou não de uma proposição crítica do trabalho de Warhol? Até que ponto podemos estar não apenas induzindo a visão de alguém ou mesmo falando bobagens sem nexo com a obra? Falar ou não de um vínculo ético entre trabalho e vida? A fala e vida do artista deve guiar a interpretação de seus trabalhos?
Concreto por todos os lados. Reiniciamos nossa viagem por uma breve história da pintura. Inicialmente: Mira Schendel. O universo sensível não nos abandona. Insistimos em ver/encontrar representações/imagens espelho do mundo “exterior”. Como parece difícil suspendermos o juízo por um minuto e apenas não pensar. Iniciamos uma investigação sobre a perspectiva ali presente. Ela apontaria para o surgimento de um “indivíduo moderno”, denotando algo como uma visão “pessoal”, uma moral ligada a determinada estrutura social e seu modo/ideologia de vida? A isso se segue uma discussão entorno da forma, contrapondo uma proposta de figuração modernista de artistas brasileiros que importa certa forma e “inova” nos motivos/assuntos a uma noção de forma difícil presente em Mira Schendel. Começamos a nos deixar afetar, passado um minuto, o pensamento se atiça. Uma miríade de interpretações reverberam pelo ar. Finalmente um pouco mais abertos, o trabalho nos vara. Uma descrição leva a pensar, por semelhança, num possível signo japonês. O que pensar, diante de uma artista que em outros trabalhos demonstrara tanta delicadeza e agora, aparentemente, irrompe em pinceladas (?) tão impetuosas e convulsas? Gesto gratuito? Possível signo japonês de ponta cabeça – coincidência? Talvez não. Diante da palavra, a representação imagética pode evanescer, em vista do peso que damos a ela – ou seria o contrário? Por ela justifica-se teorias científicas. Nela, na palavra que pode ser de honra, amiúde confiamos. No trabalho que vimos de Mira, vemos um signo atuando como letra/palavra e imagem, numa espécie de embaralhamento. Mas por que raios de ponta cabeça? Como interpretar tal trabalho? Diante da descaracterização do símbolo ela estaria nos sugerindo apenas uma fruição sensível e não moral/intelectual? Estaria ela dizendo – não leia – deixe afetar/sensibilizar!? “Os signos exercem poder em nome de quem deles dispõe e os distribui, mas as imagens exercem poder já a partir de sua própria força e do empréstimo que elas fazem da realidade”(BELTING). Haveria então relações de preponderância?
Ânsia? Tontura? Sensação estranha – um certo desconforto nos ronda. Baselitz – alguma perplexidade. Início de conversa – campo fecundo -, incorpora e desdobra outros assuntos – alguns, um pouco distantes do que vemos, mas não menos interessantes – loucurinhas - Brasília. Baselitz e Brasília? Inusitado, mas muito legal. Técnica, a visão e cognição do mundo – eis alguns dos temas tocados.
Uma bofetada, mais uma: Kiefer. Mas que mão leve, parece que acaricia. O mundo “exterior”, frequentemente, é buscado na pintura. Quando de fato estamos diante, incrédulos, titubeamos. Os materiais e a poética do trabalho nos leva a pensar nas possibilidades de sua conservação.
De repente: Nuno Ramos. Elementos estranhos fixados em algo como uma tela ou sei lá o que - eles nos acenam e nos inquirem sobre sua procedência. Entramos na dança. Pintura expandida? Nuno diz fazer pintura – o que fazer, acatar? Desconfiar? Enfrentar? Discordar? Intempestivo, em meio ao sol da manhã, um trovão: - Por que isso pode ser considerado arte? Os trabalhos que vemos, nos levam a consideração de que pintura não é apenas busca por beleza – ela tem outros valores; que ela não precisa ter motivo/assunto. Outra questão que nos embate com uma história da pintura: a tridimensionalidade. Sorrateira, uma informação: Nuno tem certa idéia para seu trabalho na Bienal. No entanto, a instituição lhe põe barreiras/limites, querendo submetê-lo. – O que é arte? O artista tem a idéia/proposta, mas um alguém não aceita. A idéia corre o risco de se dobrar. Quem diz o que é arte? Em que momento a idéia ganha tal estatuto? É possível falar em “arte” fora do âmbito institucional? Isso faz algum sentido?
Gerhard Richter. Sua técnica ascende como postura/proposição diante da fotografia. – Uma pintura com foco? .(silêncio). Suas pinturas, imbuídas de declarado hiper-realismo estariam a apontar para um confronto com a reprodutibilidade da imagem fotográfica? Que espessura pode ter tal hiper-realismo? .(decepção). Algum desânimo: Richter – pintura não objetual. Tanto desânimo, para quê? “Somos rápidos em criticar as imagens porque elas mentem, algo que nós não lhes perdoamos. Porque nelas procuramos provas daquilo que queremos ver com os nossos próprios olhos.”1 Mas antes da repulsa, uma vez mais, que tal suspender o juízo, ver, afetar-se, pensar, lembrar? Imagem, outrora, hiper-realista – denotando assim uma espécie de proximidade com a fotografia, possível modo de registro. Eis que, em algum tempo, ele pinta e depois borra – pinta por cima. A imagem/pintura supostamente figurativa que antecede o resultado final ganha um caráter efêmero. Isso que se dá no processo/decorrer de tal nova fase de sua plástica, o que antecede (talvez uma figura) o resultado final, é registrado apenas em um lugar: sua mente. Como reprodutibilizar o inconsciente? Besteira? Talvez.
Daniel Senise. Técnica que se repete. Produtos nos tacos que marcam a tela. Uma atmosfera/superfície com a aparência envelhecida.
Adriana Varejão.(Alguma repulsa e rejeição). A maioria do grupo atribui ao trabalho certa literalidade.
Paula Rego. (certa admiração e, uma vez mais, perplexidade). Relações com sketches – quadrinhos.
Jeff Koons. - O que torna seu trabalho arte? – Aparentemente, o resultado não têm a marca do artista, diferentemente, nesse sentido, de outro artista que trabalhava com idéias possivelmente aproximadas – Andy Warhol. – Onde está o gesto do artista? Na proposição? .(alguma revolta). O artista não põe a mão no trabalho, mas o pensamento. Utilizando-se de imagens publicitárias faz sua “arte”. –Ele propõe uma discussão legal – será que ele pensa em tal discussão?( Novamente – ele é “crítico”?) Apenas isso faz dele artista? Por que não se expressar de outro modo? (dum outro extremo:) – Mas ele escolhe a linguagem, escolhe se expressar artisticamente. E ...?
On-Kawara. – Não há criatividade. – Por que ele não faz tais trabalhos num caderninho e guarda para si?Qual a necessidade de expor tais trabalhos? – A discussão que ele propõe é fraca. (alguém pontua:) – Mas vários desses quadros, numa galeria, detonam outros sentidos. – Isso é “arte”! (será tão claro assim? Antes pensar no que pode ser arte ou não, teriam assuntos a serem debatidos a partir dos trabalhos que independam de seu caráter presumivelmente artístico?) (adição ao coro:) – O processo tem gigantesca relevância. Onde paira o gesto em seus trabalhos?Podemos vê-los como uma pesquisa sobre as formas e as cores? Teriam eles uma dimensão conceitual que se sobrepõe a própria visualidade em importância? Ou seria apenas um ato manifesto de uma ética/ ofício, quase que rotina de concentração e meditação, revelando-se em certa “simplicidade”? . (uma vez mais). - Novo questionamento sobre a própria história da arte ou sobre a própria espessura do sentido de pintar?
Roman Opalka -(1234567891011121314151617181920212223242526272829303132333435363738394041424344454647484950) – “All my work is a single thing, the description from number one to infinity. A single thing, a single life “. Possibilidades de mediação. Como inserir Opalka num roteiro de visita? Como falar em técnica diante de seu trabalho? Quais as exigências e condições que se impõe no trato de trabalhos ditos conceituais?
Pouco a pouco, a “arte” passa a ser vista no domínio institucional/convencional. (Alguém diz) - O quadro/objeto ao fim, “finalizado”, em exposição, nem de longe abarca o pensamento/intenção do artista.Mas ao mesmo tempo há quem pense e fundamente - a obra supera a intenção (R. Kraus). Aonde então buscar uma compreensão maior acerca de um trabalho? Nos trabalhos que o antecedem? Na pura visualidade? Na história do artista? Na nossa “cultura globalizada”? Na “cultura regional” donde procede? Na história da arte? Como fazer tal investigação e falar sobre um trabalho sem deturpá-lo? Ele tem limites de interpretação?
Sem muito o que acrescentar (perguntas "inrespodíveis", isso sim é que é colocar questionamentos), só comento que adorei o jeito que o Jean escreveu o relatório. Hahaha, ótimo!
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