quinta-feira, 6 de maio de 2010

Caixa Cultural (Paula)

Ao chegarmos à Caixa Cultural, nos separamos do outro grupo de educadores em formação e seguimos para a visita guiada, enquanto eles seguiram por uma visita livre.

O educador (Manuel) começou colocando que a maior parte das visitas de grupos são de escolas de ensino fundamental e médio. A experiência de lidar com grupo de pessoas que posteriormente trabalharão como educadores foi nova para ele, fomos o primeiro grupo a visitar a Caixa Cultural.

Propôs primeiramente que entrássemos na exposição para dar uma olhada no aspecto geral dela, durante um curto espaço de tempo. Pediu para que tentássemos fazer isso em silêncio, sem conversar sobre ela entre os membros do grupo. Seguimos então para a exposição Preto e Branco, com fotografias de Marie Hippenmeyer.

A primeira impressão colocada foi que a exposição é para ser vista rapidamente e que havia a idéia de uma sequência permeando a organização; a sequência aparenta ser um registro de uma viagem.

O educador trouxe que a artista foi da agência fotojornalistica France-Presse, além de ter estudado na escola suíça de fotografia Vevey. Ela mora no Brasil atualmente e morou durante algum tempo em Lima. Nesses lugares a linguagem do seu trabalho mudou completamente, sua relação com os espaços por onde passou e viveu é evidente na exposição. A sensação de não pertencimento nem ao seu lugar de origem, nem aos outros lugares, talvez seja algo que ela queira transmitir.

Dai então o educador colocou o questionamento da Imagem como registro ou não de uma realidade; e sendo a fotografia sempre uma escolha, aonde está a construção daquilo que está presente na fotografia?

Este trabalho de Marie é comummente visto sob os conceitos da arte povera. Há uma busca por instrumentos não muito tecnológicos a favor da busca por uma essência, por uma identidade. Ela não só fotografa na Suíça, mas onde acha aspectos que tem relação com sua identidade, com ela na sua subjetividade.

As fotos da exposição foram tiradas com a maquina lomográfica Diana, uma máquina de plástico sem quase nenhuma regulagem, não se tendo muito controle sobre o resultado. O acaso é importante dentro dos conceitos que ela trabalha, há uma busca pelo inconsciente.

O educador coloca que para a artista outra questão importante é a questão do espaço expositivo. Houve um estudo de como seria a melhor forma de colocar esta exposição num espaço octogonal, poluído visualmente. A escolha pelo preto fosco trás a sensação de um espaço mais intimista, enfatizando também a idéia de uma sequência através do contraste.

Foi perguntado como se tratam essas idéias com um grupo de crianças. O educador responde que a conversa é outra, o trabalho com crianças fica mais focado em pensar no que aquelas imagens criam neles, pedindo para que cada um escolha a que mais lhe chama atenção, lhe toca. Tenta se traçar um paralelo com o que eles sentem. Um exercício proposto em geral é que eles criem uma narrativa a partir de uma imagem, chamando para uma abstração, um resgate, uma criação de sentido da imagem para elas.

É perguntado sobre o público do Centro em geral, ele responde que jovens de escolas públicas são maioria, seguido por ONGs e escolas particulares. Mas o passeio depende mais da postura do professor, que pode ver a visita tanto como uma imersão em um contexto diferente, quanto como uma simples obrigação.

Seguimos então para a visita livre, visitamos a exposição de José Caldas - Brasil e a transformação da Paisagem - e a exposição Os Anos JK - A Era do Novo - Olhares de Sérgio Jorge e Jean Manzon.

Particularmente, apesar de termos feito a visita livre junto com todo o grupo, acredito que o que me chamou atenção nas duas exposições foi diferente do que cada um pensou com relação a elas. Foi uma experiência muito particular, para cada um.

As sequências fotográficas de vários lugares, mas tratando os mesmos lugares em sequência por “perspectivas” diferentes, trazendo as vezes outras idéias, é o que permeava a exposição de José Caldas para mim. Com uma foto da orla de Copacabana, seguida de uma foto de uma macumba em Copacabana, por exemplo. Ou as diferentes fotos, tratando da transformação da paisagem na foz do São Francisco de 89 a 06.

No caso da exposição dos Anos JK, pensei muito na idéia de representações e temáticas do Cotidiano no momento “desenvolvimentista” da História do país, me remeteu muito ao filme São Paulo S.A. do diretor Luís Sérgio Person, que trabalha muito com representações cotidianas do Urbano nesta época.

Mas pessoalmente pensei em “casa” também, pois nasci em Brasília. Uma sequência de fotos que retratavam o dia da inauguração de Brasília me chamou atenção. Fotos que retratavam o espetáculo da inauguração da capital moderna foram contrastadas lado a lado - com fotos de grande porte - com pessoas descansando nos acampamentos improvisados no mesmo dia. É bem interessante para entender essa visão de grandiosidade e “modernidade” como uma construção.

Nos dirigimos ao espaço de oficinas, onde nos dividimos em quatro grupos para trabalhar um texto, um pedaço da introdução do livro O Fotográfico. Para o meu grupo foi sorteado o tema “fotografia”, os outros grupos discutiram o “olhar”, a “memória” e a “identidade”.

Discutimos que a fotografia possui um caráter indicial e ainda se vê a fotografia como documento, retratação do real, mas esta envolve também técnica, estilo e a subjetividade do fotografo.

Há uma bagagem imagética no nosso olhar, o texto tratava metaforicamente disso para mim. Esta bagagem é determinada tanto por uma memória coletiva quanto por uma memória individual, de forma muitas vezes inconsciente. Mas a memória individual influi na memória coletiva e a transforma e vice versa. O esfacelamento do espelho foi visto por nós como uma possível nova tomada de consciência.

A exposição do que foi discutido começou pelo grupo que pensou a questão da identidade. Colocaram que a busca da identidade nunca se fecha, pensando esta identidade como você em si mesmo, você no mundo e com os dilemas dele.

Retomaram a exposição de Marie, colocando o trabalho da artista como retratador de uma subjetividade da artista, mas a colocando como uma mulher do mundo ao mesmo tempo.

Foi pensado que como educadores devemos ter a capacidade de dialogar a partir dos elementos comuns, pensando em qualquer público. A questão da Política é seminal dentro desta Bienal, sendo a Política lugar da discussão e do diálogo.

Discutimos então o sentido que a idéia de memória poderia ter atualmente. As impressões subjetivas remetem a uma memória, mas a fotografia - e também a Arte como um todo - são produtoras também de novas memórias. A memória forma a identidade e a identidade a memória.

Foi chamada a atenção para a questão do artista estar envolvido no momento da produção de sua obra, sem ter muita consciência se algo o condiciona a pensar assim. A questão da individualidade é muito condicionada pelo momento histórico e pelo subjetivo ao mesmo tempo. O inconsciente também é retratado e a memória é um resgate e também uma reformulação.

Foi colocado que a questão do real é uma categoria discutida na fotografia desde primórdios da produção fotográfica moderna, no entanto, a visão leiga da “fotografia como documento” é muito difundida até hoje. O artístico - e até o literário, deve prever diferentes formas de percepção.

Passamos a discutir as visitas, sendo colocados que há pontos fortes e fracos dos dois tipos de visitas que tivemos. Chamou-se a atenção para o educador tendo que ter uma proposição quando vai lidar com grupos. Recortes são feitos, obviamente, mas tem de se pensar no lido com um todo.

Foi questionado qual é o lugar da espontaneidade numa visita. Todos possuem uma bagagem que estabelece relações com a obra e a partir disso se estabelece uma relação, sendo essa espontânea ou não.

Também foi colocado que é interessante estabelecer uma relação com o professor quando vai se lidar com grupos de crianças. Partir da relação prévia que as crianças tem com Arte e com exposições é importante para a criação de um vínculo.

Responderam então uma questão escrita por um dos estudantes no início da visita: O que a mediação numa exposição de Fotografia difere da das outras Artes visuais?

Os educadores colocaram que a Fotografia possui suas especificidades, assim como as outras técnicas artísticas. Tem de se ter a consciência também de que não se sabe tudo sobre fotografia só porque se trabalha com ela, são diferentes pontos de vista e diferentes formas de ver, incluindo o do educador. Isso é interessante de pensar, pois em Arte Contemporânea há quase uma técnica específica para cada trabalho.

Finalizando a oficina, respondemos a questão de como era nosso olhar antes e como ele é no momento. Não sei vocês, mas essa possibilidade de interação e discussão chamou muito a minha atenção para essa constante mudança através do subjetivo, o que com certeza modificou o meu “olhar”.

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