A visita começou com a apresentação de um vídeo/propaganda institucional do próprio Itaú Cultural, seguida de uma palestra ministrada por Paula Braga, que discorreu sobre a trajetória e a produção de Oiticica.
Oiticica se insere no contexto do surgimento do neo-concretismo, partindo de influências do concretismo, como Haroldo a Augusto de Campos e sua obra se estende pelo contexto da ditadura, do tropicalismo e da contracultura. Paula Braga começou por destacar que o início da arte geométrica abstrata no Brasil veio com um “atraso” de aproximadamente quatro décadas em relação à Europa, pois enquanto Kandinsky já havia alcançado grandes êxitos nesse sentido em 1910, essa expressão artística só vai adentrar o Brasil com força em 1951, na primeira Bienal.
Algumas das influências mais marcantes de Oiticica no começo de sua carreira são Malevich e Mondrian, e no contexto brasileiro Hélio tem um destaque no Rio semelhante ao que Gullar tem em São Paulo. A busca por uma arte menos racionalizada e cada vez mais viva é o propulsor das transformações na obra de Oiticica. Isso se traduz em uma tendência por cada vez mais superar questões como, por exemplo, o equilíbrio estético de um quadro, ao inserir elementos como a figura do participador e a dimensão do tempo na sua produção. Assim, o artista cria obras tridimensionais, que devem ser percorridas para serem vistas, incitando uma relação mais ativa do observador.
Logo, a obra de Oiticica não mais tem de ser apenas contornada, mas penetrada. O artista cria Penetráveis e Bólides que estabelecem uma relação diferente com o público do que a arte bidimensional. Hélio faz do mundo seu museu; busca a arte nas ruas e encontra o “Bólide Lata”, fica fascinado com a Mangueira e vê no samba a “origem primordial da arte”. Dessa busca constante de criação de novas formas, de uma nova ética, de uma arte cada vez mais viva, surgem os Parangolés, obras de arte que podem ser vestidas e vestindo-as pode-se dançar, sendo que a dança e o corpo de cada um criam uma obra absolutamente única, individual, cada vez que é usada.
As diferentes referências de Oiticica, desde os sambistas da Mangueira, até Nietzsche, aparecem na sua produção criando uma arte que valoriza a subjetividade, que busca suscitar questões e percepções individuais, e dessas várias individualidades cria uma totalidade. A experiência sensorial, seja ela tátil, olfativa, ou qualquer outra, busca a tomada do indivíduo pela obra, e a alteração de seu estado de consciência - de forma comparável aos efeitos de um entorpecente.
As transformações levadas a cabo e propostas por Oiticica “não cabiam” no espaço passivo do museu, e passa a buscar cada vez mais o jardim, o lugar público. Cada vez mais vê-se a transição do movimento no qual o corpo circula a obra, como em seus primeiros trabalhos tridimensionais, para o movimento no qual a obra de arte cobre o corpo. Daí a intensa utilização de tecidos na obra de Oiticica.
Com essas transformações, ainda segundo Paula Braga, Oiticica aplicava o que aprendera em Nietzsche e sua busca por uma nova Ética e por um novo “super-homem”. Em meio à ditadura, Oiticica propõe um novo comportamento, ao unir uma nova Ética a uma nova estética.
O contato do artista com a marginalidade, com a violência e com o ambiente das favelas é claro em sua obra. Segundo Paula Braga, quando Oiticica faz o apelo à marginalidade heroica, o que ele propõe não é o crime, mas sim o pensamento para além do centro do que está posto, um pensamento e um comportamento às margens. É a partir desse contato Hélio faz a crítica à sociedade, afirmando que a marginalidade expõe as falhas desta, e que por isso essa sociedade tenta apagar com brutalidade essas falhas.
Oiticica, já bastante influente no meio artístico, vê seus intentos não-concretizados com a apropriação da “Tropicália” e a leitura superficial que é feita desta por diversos outros artistas, o que o incita a buscar uma arte que não possa ser apropriada, uma arte supra-sensorial. É aí que surgem os bólides olfáticos, o parangolé poético e vários outros.
Exilado durante a ditadura, Oiticica produz e expõe em Londres e Nova York, desenvolvendo nesses lugares seus “ninhos” e diversos escritos em forma de hipertexto. Segundo Paula Braga, a impossibilidade de colocar-se a obra de Oiticica em um local no qual ela poderia realizar plenamente sua função, a saber, o espaço público (como por exemplo a impossibilidade de se instalar um labirinto na Praça da República devido à violência urbana) mostra que Oiticica produzia arte para um tempo futuro, para um mundo que ainda há de vir.
Quanto à monitoria, a educadora que liderou a visita guiada à exposição levantou diversas questões interessantes. Primeiramente, quanto à constituição do grupo de monitores, ela destacou a importância da multidisciplinaridade e das diferentes especialidades trocarem olhares e informações como ponto crucial para um bom trabalho. Foi ressaltada também a importância de não meramente relatar a vida do artista e algumas informações sobre as obras, mas sim propiciar uma experiência ao público.
Fizemos o percurso que essa monitora geralmente faz com grupos de adolescentes e conversamos sobre as diferenças entre os diferentes grupos de idade. Com crianças e até certo ponto com adolescentes, pode-se trabalhar com a experiência e a reflexão da mesma pode ser feita a partir de perguntas elementares; as crianças interagem de forma mais descontraída, por exemplo com os labirintos, e há mais facilidade em estabelecer um diálogo a partir de questões como “qual é a semelhança entre isso e isto?” ou “como foi a sensação de estar ali dentro, ou percorrer tal espaço?”. A tendência é que com grupos de adultos as visitas fiquem mais restritas a conversas, lembrando sempre que o fator tempo é bastante importante para “amaciar” os grupos e incitar uma maior interatividade.
Importante ressaltar que o espaço estava fechado sendo que os participantes da Bienal eram os únicos presentes, e que normalmente há muito mais barulho e pessoas do que havia na ocasião. Não poucas vezes um monitor prepara um roteiro e tem que reelaborá-lo de última hora, pois ao chegar a uma obra chave há um outro grupo monitorado lá.
Ainda na questão das diferentes idades, os adultos tendem a ter muito medo de errar, e por isso é importante trabalhar a noção de que não há uma única resposta correta para as questões levantadas.
Um ponto muito interessante é que muitos dos alunos que visitam o museu, o fazem pela primeira vez na vida, e por isso é necessário trabalhar alguns pontos básicos. Ao se perguntar o que há em um museu, geralmente se ouve a resposta “quadros”, ou “dinossauros” ou “coisas de história”. Esse pode ser um eixo que guie a visita, a saber, o questionamento do que pode haver em um museu, que frequentemente vira a questão do que é arte, e por que obras como a de Oiticica podem ser vistas num espaço como o Itaú Cultural. Com os penetráveis, é também a primeira oportunidade de tocar uma obra ou “entrar numa cor”.
A educadora que guiava o grupo ressaltou que a relação de detentor de poder é inevitável, o que dobra a responsabilidade do educador em buscar não enviesar as respostas do público simplesmente para conseguir fazer a ligação com a próxima obra de seu roteiro de forma fluida.
Quanto à questão de valorizar-se a trajetória do artista e a relação entre as obras, ou focar-se nas obras individualmente, a educadora colocou que cabe ao monitor criar um fio condutor para o roteiro de exposição. No caso das obras de Oiticica esse fio condutor são Forma e Cor.
Ela também deu algumas orientações quanto à grupos escolares, principalmente quanto a tornar o professor um aliado. É importante conversar com o professor ou professora para saber o que a turma tem trabalhado e se há algo em específico que eles desejam visitar. É também importante que o professor não use a monitoria como uma folga para não prestar atenção nos alunos e que este ajude a manter a disciplina dos jovens ou crianças.
Ao longo da exposição havia diversos textos explicativos que tratavam da experiência pretendida pelas obras, frequentemente descrevendo a reação esperada do público ao entrar em contato com a mesma e falando também do processo que levou a criação de tais obras.
Infelizmente não pudemos fazer uma discussão imediatamente após a visita, mas esta foi remarcada para o dia seguinte.
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