quarta-feira, 12 de maio de 2010

MAM (Marianne)

Situado no mais importante parque da cidade, o Museu de Arte Moderna de São Paulo MAM está localizado entre o Pavilhão da Bienal e a Oca, em um conjunto projetado por Oscar Niemeyer na década de 50. Apesar de haver sido fundado em 1948 pelo empresário Francisco Matarazzo, é apenas em 1969 que o MAM passa a ocupar o Ibirapuera, após uma reforma do edifício realizada por Lina Bo Bardi.

Este contexto histórico do museu foi um dos tópicos abordados na breve apresentação da educadora Diana que deu início à nossa visita no começo da manhã. Além disso, falou-se sobre o acervo do MAM que, a despeito do nome, reúne sim uma coleção de obras de arte contemporânea – e não moderna. Com um acervo de mais de cinco mil obras, o museu conta com uma coleção bastante diversificada de pinturas, esculturas, fotografias, performances e, dentro de suas últimas aquisições, destaca-se a entrada do museu que agora conta com uma parede que abriga o colorido universo criado pelos grafiteiros OsGemeos. A apresentação seguiu-se por um bate-papo - realizado dentro da própria exposição que seria em seguida visitada pelo grupo - no qual foram aprofundadas questões e dúvidas a respeito da ação educativa no MAM.

Criado em 1998, o setor Educativo conta com três educadores permanentes, além de uma equipe de colaboradores e estagiários. Segundo Diana, ele está intimamente ligado à curadoria do museu, e tem como missão a formação do público e a construção do conhecimento. Com o objetivo de “despertar a sensibilidade do visitante e auxiliá-lo em seu processo de interpretação e reflexão sobre arte”, o Educativo conta com uma série de programas e parcerias, focados em atividades práticas. Além de o museu proporcionar encontros com professores e universitários (“Contados com a arte”), destaca-se o programa “Igual, diferente”, com foco em visitas para perfis específicos de público (como deficientes visuais e auditivos) e a iniciativa “Escolas Parceiras”, que tem como objetivo articular a programação do MAM com o calendário pedagógico das instituições de ensino. Cabe aqui citar a organização da Curadoria no sentido de elaborar um calendário bastante específico a respeito das exposições que ocuparão o museu com muitos meses de antecedência, estabelecendo assim um diálogo mais sintonizado com as escolas.

No que se refere às visitas educativas, Diana destacou três perfis diferentes que, apesar da divisão, se articulam e dialogam entre si, a saber: “visitas mediadas” (focadas sobretudo em uma interação maior com o público, através de conversas e discussões); “busca orientada” (na qual o grupo deve “procurar” um elemento específico na exposição, privilegiando uma idéia de autonomia); e por fim, “visitas-palestra.” Em relação ao acolhimento do grupo, a educadora contou que este normalmente é realizado na área externa do museu, aproveitando o Jardim das Esculturas, projeto de Burle Marx que reúne cerca de 30 obras pertencentes ao acervo do MAM. Esse momento é então fundamental para estabelecer um primeiro contato com o grupo, conhecendo-o um pouco melhor, e ainda é quando se é possível delimitar regras, explicar como se dará a visita e, ainda, acessar o professor. Após esse momento, tem-se o desenvolvimento seguido de uma conclusão da visita, sendo que existem atividades práticas a serem propostas entre esses três períodos.

Após esse bate-papo com a educadora do MAM, seguimos então com a visita propriamente dita à exposição do artista Flávio de Carvalho. É importante ressaltar que esta foi a primeira visita do grupo feita de forma realmente “livre” a uma exposição, no sentido de que não houve acompanhamento de nenhum educador, nem palestras sobre o tema ou artista. Além disso, cada um pôde realizar a visita de forma autônoma, tendo sido combinado um horário para o reencontro do grupo.

Com essa proposta, fomos instigados a focar, durante a visita, especialmente em estratégias de observação, pensando o espaço da exposição, a disposição das obras, o tempo para visita, entre outros aspectos. Flávio de Carvalho é um nome fundamental para a arte contemporânea, já que suas obras têm, até hoje, repercussão no cenário artístico brasileiro e do mundo. Este artista que era pintor, escritor, arquiteto, ilustrador e cenógrafo tem, nesta exposição, uma curadoria que propõe, seguindo uma linha temporal, um cruzamento de leituras dessa obra, permitindo vislumbrar as múltiplas atividades que ele realizava simultaneamente ao longo de sua trajetória. Através de uma variedade de desenhos, pinturas, projetos, fotografias, textos e filmes, o visitante entra em contato com uma multiplicidade de temas, desde os projetos arquitetônicos no começo da carreira do artista (final dos anos 20), até seus últimos retratos psicológicos da década de 70.

Se essa amplitude e variedade do legado de Flávio de Carvalho podem impressionar em um sentido positivo, não deixam de trazer também suas contrapartidas. Após a visita individual de cada membro do grupo, discutiu-se a dificuldade com que um visitante pode se deparar diante de um artista de múltiplas “facetas”, em uma exposição que nem sempre articula de maneira clara as obras entre si. Com textos pouco explicativos, aquele que não domina a obra do artista pode sentir-se perdido, “solto”, sem um fio condutor que oriente a visita. É verdade que a exposição apresenta uma narrativa da trajetória de vida de Flávio de Carvalho, porém tem-se a impressão que não se prioriza a questão do “processo”, fundamental para compreender a obra de qualquer artista contemporâneo. Nesse sentido, o grupo discutiu brevemente essa idéia da arte como um processo – e nesse ponto é possível fazer um paralelo importante com nosso trabalho na Bienal. A questão do porquê de se expor o trabalho de um artista em detrimento de outro, quando aparentemente a obra não apresenta algo essencialmente inovador ou único, ou ainda do porquê de se expor especificamente aquela obra e não outra, muitas vezes pode ser compreendida a partir da importância daquele trabalho enquanto parte de um processo, de sua relação com algo maior. Em contrapartida, é importante um cuidado para não reduzir a explicação a esta única variável, enfraquecendo assim o potencial que uma obra é capaz de carregar em si, a despeito de sua relação com o externo.

Falamos brevemente a respeito do “direito” do público de não se identificar com determinada obra ou artista. Não há problemas nessa posição, muito pelo contrário, desde que este “não gostar” seja construído a partir de um olhar crítico e consciente. Por fim, diante da relação muito próxima que o Educativo do MAM estabelece com a Curadoria do museu, colocou-se a questão de quais são as perdas e ganhos nesta relação, a ser discutida em um próximo encontro.

4 comentários:

  1. Achei interessante a experiência proposta de leitura livre sem mediação. Nos deu uma maior liberdade para analisar o trabalho.
    Eu particularmente gostei do trabalho do Flávio de Carvalho por ele adotar essa postura meio "sangue ruim" em relação aos seus projetos, tal qual a procissão ou a dança das macumbas.
    Já os projetos de arquitetura dele, fiz uma analogia (meio besta) em relação as formas como se fossem construções do Star Wars, totalmente contemporaneas apesar da epoca que foram feitas.
    Projetos esses que nem se concretizaram e alguns creio que nunca vão se concretizar tal qual o prédio de vidro com base esquisita no centro.

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  2. a questão do “processo”, fundamental para compreender a obra de qualquer artista contemporâneo ??????

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  3. Não é fundamental e seria querer muito achar um padrão para entendimento de qualquer artista contemporâneo, cada qual tem o seu método de fazer-artístico, seja ele por processo,registro,projeto ou estético.

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  4. Pessoal, talvez eu tenha me expressado mal em relação a essa idéia da arte como processo. Em primeiro lugar, não falei que este seja um padrão para se entender arte contemporânea, acho que é apenas uma dentre as várias possibilidades. O que eu quis dizer é que, na grande maioria dos casos, é bem importante olhar para uma obra dentro do contexto em que está estabelecida: seu processo de criação, as influências do artista, obras anteriores e posteriores a esta, enfim, entendê-la como parte de algo maior dentro de um determinado contexto.

    Bom, acho que é isso. Também queria sugerir que as críticas que fizermos uns aos outros não sejam anônimas, pra que a gente possa discutir abertamente, contribuindo assim para nossa formação.

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